Uma inspeção realizada em uma comunidade terapêutica de Guarulhos revelou um cenário alarmante. Segundo relatório elaborado por peritos, defensores públicos, psicóloga e representantes de organizações de direitos humanos, 52 mulheres teriam sido mantidas em condições semelhantes a cárcere privado, submetidas a agressões físicas, humilhações e restrições severas sob a justificativa de tratamento para dependência química e outros problemas de saúde.
Os relatos colhidos durante a fiscalização descrevem situações extremas. Algumas mulheres afirmaram ter sido retiradas de casa à força, amarradas pelas mãos e pés e levadas contra a própria vontade para a instituição. Outras relataram contenções com injeções, estrangulamentos conhecidos como “mata-leão”, agressões físicas e punições para quem desobedecesse regras internas. A inspeção encontrou portas com travas externas, bloqueios que impediam a saída dos quartos e denúncias de controle sobre ligações telefônicas, visitas familiares e comunicação com o mundo exterior.
O relatório também aponta que as internas eram obrigadas a realizar tarefas de limpeza e preparo de alimentos, sob ameaça de punições como isolamento, restrição de cigarros, corte de visitas e até privação de alimentos enviados por familiares. Entre as mulheres acolhidas estavam pacientes com graves transtornos mentais, incluindo casos de esquizofrenia e possíveis crises psicóticas, além de denúncias de revistas vexatórias com mulheres obrigadas a ficar nuas durante a admissão. Fotografias registradas pela equipe mostram ainda infiltrações, fiação exposta, condições precárias de higiene e sinais de doenças de pele entre as internas.
A empresa responsável pelo local nega todas as acusações e afirma possuir documentos que comprovam que as internações eram voluntárias. Os advogados da defesa sustentam que não existem exames que comprovem agressões e garantem que os fatos relatados não ocorreram. Apesar disso, três pessoas ligadas à instituição chegaram a ser presas em flagrante após a inspeção, sendo posteriormente liberadas mediante medidas cautelares. O caso segue sob investigação e pode revelar um dos episódios mais graves já denunciados envolvendo comunidades terapêuticas no estado de São Paulo.
