O novo governador de São Paulo, a partir do dia 7 de abril, recebeu o HOJE em seu gabinete nesta quarta-feira (21) bem despojado e falante. Em momento algum se preocupou com o tempo da entrevista e detalhou o que tentará fazer até o dia 31 de dezembro, quando deixará de ser vice do governador Geraldo Alckmin (PSDB), que renunciará ao cargo para concorrer à Presidência da República, e tomará as rédeas do estado em suas próprias mãos.

Márcio França, que também é secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, está no PSB há 30 anos, seu único partido, e revelou que no dia em que for assinar o livro de posse como governador de São Paulo irá lembrar dos grandes amigos Eduardo Campos (1965-2014), o avô de Campos, Miguel Arraes (1916-2005) e Mário Covas (1930-2001).

Ex-vereador e ex-prefeito de São Vicente, onde nasceu e teve a maior reeleição para prefeito do país, com 93,1% dos votos válidos, França ainda foi eleito e reeleito deputado federal.
Na entrevista, falou sobre segurança, relacionamento com os professores, água, saúde, juventude e, claro, o prefeito de São Paulo João Doria (PSDB), com quem deverá se confrontar no palanque na disputa para o governo: “Meu problema com ele é a palavra não cumprida, isso não tem perdão”.

– O “menino de São Vicente” vai virar governador do estado de São Paulo. O que Isso significa para a sua história de vida?

Márcio França – Uma meta traçada há quase 45 anos. Desde jovem eu disse para a minha família que queria ser político e venho de uma família que só tem médicos e servidores públicos. E dizia que pretendia ser governador.

Ou seja, quero dizer que eu tenho meta e tenho foco. Cada coisa da minha vida fiz com meta e foco, sabendo que essa determinação acabou produzindo resultados importantes. Eu errei e acertei muitas vezes, mas nunca deixei de ter foco. Quem não sabe para onde vai levar o barco, não adianta ter vento bom.

– Quando for assinar o livro de posse de governador, de quem vai se lembrar?

França – A última pessoa que eu fiz essa promessa [ser governador] foi para Eduardo [Campos]. Antes de sua morte, brincávamos muito com essa história dele ser presidente da República e eu governador. E fiz a promessa que se nós ganhássemos, eu iria a pé de São Vicente até outra cidade do litoral de São Paulo, cerca de 200 quilômetros.

Depois que ele morreu, eu negociei com Deus um pacto: vou fazer uma parte do percurso de bicicleta, a outra parte a pé. Mas fui. Então, na hora da minha posse, certamente vou lembrar do Eduardo, do [Miguel] Arraes e do [Mário] Covas que foram pessoas importantes nesta minha trajetória.

– O senhor tem dito que seu governo será de continuidade, mas qual será a sua ação de maior impacto nos próximos nove meses?

França – A gente está tentando focar em programas especiais para a juventude. Eu tive na minha cidade a intuição, pois São Vicente além de pobre era a cidade mais violenta de São Paulo, de implantar programas para jovens e alguns deles produziram resultados rápidos, como o Alistamento Civil, que dá oportunidade para quem tem 18 anos, é como se fosse o Jovem Aprendiz.
E a gente gostaria de criar a universalização do ensino universitário, que permitirá que todo mundo que se forme no ensino médio, que são 450 mil por ano, tivesse acesso à universidade pública e sem vestibular. Essa é a meta.

A gente criou a Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), à distância, e só este ano conseguimos abrir 20 mil vagas. E a previsão é que a gente consiga fazer 100 mil vagas este ano, 200 mil vagas em janeiro e 400 mil vagas em julho. Em um ano e meio, a gente que ter a marca de ser o primeiro estado do país a universalizar o ensino universitário.

Que cursos? Engenharia de Produção, Engenharia de Computação, Matemática, Pedagogia e Tecnólogo em Gestão Pública. E estamos preparando agora Contabilidade e Administração. Hoje já é maior universidade virtual de São Paulo, com ensino à distância e aulas presenciais a cada 15 dias. O jovem estuda na sua cidade. Teremos em breve 430 polos.

– Os próximos nove meses de governo serão uma amostra grátis do que o senhor é capaz de fazer por São Paulo?

França – Sim. Não iremos ter tempo para grandes obras físicas. Porque existe todo um processo de estudos, licitação…

– Certo, mas no caso do Metrô, que já tem no seu cronograma a entrega de 16 estações, nas linhas 4-Amarela, 5-Lilás e 15-Prata, até o final do ano. O senhor cumprirá este cronograma?
França – Sim. O governador Geraldo Alckmin está deixando tudo bem alinhado, com recursos e andando no automático. Elas não vão depender de uma ação específica minha.

– Obras grandiosas não têm como ser feitas?

França – Tem como você decidir politicamente. Por exemplo, eu tenho a ideia de levar o trem da CPTM que vai até o Aeroporto de Guarulhos até a região do Pimentas. Vai ficar muito sem sentido o trem chegar até o aeroporto e não até Pimentas. Nesse caso específico o que posso fazer é determinar o estudo para se fazer essa extensão. E se der tempo, você lança o projeto executivo.

– Na área de segurança, temos observado os índices de criminalidade no estado de São Paulo estão em queda. Dá para se fazer mais alguma coisa?

França – Dá porque a gente, durante todo esse período, fez tudo o que era possível no sentido de equipar as polícias, colocar mais polícias nas ruas. Hoje temos mais de 100 mil homens da Polícia Militar e mais 30 mil na Polícia Civil.

O problema é o seguinte: todos nós estamos enxugando o gelo. Temos que encontrar uma forma de evitar que o gelo seja produzido. Aí vem o programa de Alistamento Civil. Você tem pegar um jovem de 17, 18 anos e dar oportunidade a ele antes do primeiro delito ser cometido, Se você não sabe, 56% das pessoas que estão presas cometeram o delito com 18 anos.
Queremos trazer esse jovem para o lado positivo da sociedade. Eu tenho experiência, eu já fiz numa cidade pobre, sem a ajuda de ninguém e que deu um grande resultado. E vou colocar esse programa em prática. A meta é chegar a 100 mil jovens.

– A saúde, que é um problema crucial para qualquer governante, pode ser melhorada em nove meses?

França – Olha, vamos inaugurar mais seis hospitais e teremos no total 102 hospitais. Mas a saúde tem um grande problema: o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil permite que qualquer brasileiro se utilize no sistema existente em qualquer estado, tanto que boa parte dos nossos usuários no sistema vem de outros estados da federação; temos hoje quase 2% que vêm do exterior. Precisamos fazer com que a União possa melhorar a remuneração dos valores pagos pelo SUS, não existe reajuste nas tabelas há 16 anos. Hoje São Paulo está arcando com quase tudo.
E outro caminho é aumentar o número de AME Mais, que realiza exames ambulatórias e pequenas cirurgias, e tem aprovação de 98%.

– Nesse aspecto, de pessoas vindas de fora, a cidade de São Paulo vai receber em abril um grande número de venezuelanos que estão no Norte do país. O senhor é favorável?

França – Temos que ser solidários. São Paulo tem coração de mãe. A gente é formado nisso, nós temos as maiores colônias de muitos países. Só libaneses em São Paulo temos 6 milhões; no Líbano tem 4 milhões. São Paulo é um polo centralizador de diversas culturas.
O que atrai as pessoas para São Paulo? Empreendedorismo. Quem vem pra cá, quer empreender. A gente abre 180 mil empresas por ano, com crise ou sem crise.
Agora, temos que melhorar ainda mais a qualidade da mobilidade, do transporte público, e também criar oportunidades para as pessoas trabalharem mais próximas de onde elas moram.

– A questão da água está resolvida?

França – Está bem resolvida. O governador fez os movimentos certos, na hora certa, interligamos represas. Agora com as interligações temos um atendimento muito melhor à população, pois se determina represa está com o nível baixo, podemos pegar a água de outra.

– Na área de educação é notório que nunca houve uma relação de amor entre o governo e os professores. Este relacionamento conturbado tem condições de mudar?

França – Eu já me reuni com a Apeoesp (sindicato dos professores), tivemos uma conversa longa e acho que vamos, nesse ponto, facilitar uma melhor relação no diálogo. Não tenho porque não me relacionar. Claro que um ano especial, pois temos regras legais por ser ano eleitoral, mas vamos apontar uma escola para o futuro, uma escola nova, que possa pensar numa escola de sonhos.
O Estado tem que ter uma sala de aula adaptada ao século 21. Os meninos de hoje são digitais e não temos hoje estruturas digitais, nossa estrutura ainda é do século 19, a sala de aula hoje é a de 100 anos atrás.

– Eu creio que seja um desafio para o senhor governar São Paulo sem pensar na própria sucessão. Conseguir separar estes dois pontos é uma questão de disciplina ou de prioridade?

França – Acho que é questão de disciplina. Quando eu era prefeito, achava que fazia muita coisa e nunca tive dinheiro para fazer muita publicidade. E era criticado. Quando você faz as coisas de maneira rápida e eficaz, você pauta. E teremos muitas notícias para todo mundo falar nos próximos meses. Isso vai produzir conhecimento e melhorar a popularidade que eu não tenho hoje.

– O senhor é um sonhador nato?

França – Sou. Todo dia eu acordo com uma meta e, ao mesmo tempo, corro para colocar na prática aquilo que eu sonhei. O mesmo forno que produz o pessimismo, produz o otimismo. O mesmo forno que produz o desalento, o desapontamento, produz muito rapidamente a esperança, a força, a autoestima. Precisa encaixar a fala com a prática. Item número 1: falou, cumpre. Não dá para falar e não fazer, aí começa a frustração.

– O líder do PSDB na Assembleia, deputado Marcos Vinholi, ameaçou transformar a bancada tucana em oposição ao seu governo se o senhor não parar de criticar o prefeito João Doria, que também irá disputar o governo do estado. Isso o preocupa, governar sem maioria?

França – Eu já tenho maioria sem o PSDB. Seria natural que eles fossem oposição, pois eles têm um candidato. Agora, não precisa ameaçar, nem pega bem. Quem quer fazer, não ameaça.
Nosso bloco tem hoje 28 deputados, o PSDB tem 14. Agora, terei muito mais que 28, terei perto de 50 deputados. E é um tempo muito curto, não teremos grandes aprovações.
Vou tentar mostrar a eles que é preciso separar a disputa eleitoral da gestão. Olha, sou amigo do Doria, fiz campanha para ele e ele nunca fez pra mim. Meu problema com ele é a palavra não cumprida, isso não tem perdão. Ele não deu tempo de ser o melhor prefeito. Eu me sinto frustrado pelo fato dele ter prometido ser prefeito até o fim do mandato e agora deixar a prefeitura para ser candidato ao governo.

Doria disse que quando acaba o amor, os casais se separam, mas eu não imaginei que o amor dele por São Paulo fosse tão curto. Quando ele vai falar para 3 milhões de pessoas que votaram nele que o amor acabou? Eu fiz uma conta que se, ele falar cinco minutos com cada um eleitor que acreditou nele, levará mais quatro anos para se explicar.

Reportagem: Gil Campos (Diretor de redação)
gil.campos@freesaopaulo.com.br
Foto: Ivanildo Porto

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