Em auditoria, Saae descobre suposto desvio de quase R$ 5 bi na autarquia

Durante auditoria interna, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) descobriu um suposto desvio de verba nas últimas gestões e contratos superfaturados. De acordo com o superintendente da autarquia Ibrahim Faouzi El Kadi, o valor desviado pode chegar a quase R$ 5 bilhões. As investigações tiveram início no mês de julho. “Vinte e cinco milhões de reais por mês vezes 12 meses ao ano são R$ 300 milhões; vezes 16, sumiu daqui [Saae] R$ 4,8 bilhões”, sugere Faouzi.

O superintendente, que assumiu o comando do Saae em julho, entende que a verba desviada, caso seja confirmada, de R$ 4,8 bilhões seria suficiente para realizar o tratamento de esgoto em sua totalidade, melhorar a infraestrutura de abastecimento de água em todo município e pagar a dívida que a autarquia possui com a Sabesp. Ele também classificou essa possível irregularidade como um crime sem precedentes.

“Com R$ 4,8 bilhões que sumiu daqui, a gente pagaria os R$ 3,3 bilhões, R$ 1,2 bilhão a gente fazia o estudo da cidade toda da cidade inteira e sobrariam ainda R$ 300 milhões. Quer dizer, a gente teria um trabalho de excelência na cidade com 100% de esgoto tratado e 100% da água, e não teria rodízio”, explicou.

A revelação sobre a investigação interna na autarquia ocorreu em uma reunião da direção do Saae com seus funcionários no final do mês passado, cujo áudio vazou e chegou à redação do HOJE. Durante o encontro, Faouzi ressaltou o custo da operacional por mês da autarquia e os métodos que culminaram na bilionária dívida acumulada ao longo dos anos com a Sabesp.

“Para deixar bem claro para vocês [o que houve] nesses anos e porque a gente chegou nesse termo. A gente paga R$ 18 milhões para a Sabesp por mês, R$ 16 [milhões] são operações do Saae e sobravam R$ 7 milhões todo mês. Ou seja, eles [governo anterior] não pagavam R$ 18 milhões para a Sabesp e não sobrava R$ 1. Ou seja, 18 mais 7, fazendo uma conta primária, 25. Sumiam R$ 25 milhões por mês daqui”, supõe.

Em contato com o HOJE, o Saae confirmou a realização da reunião com seus funcionários, a auditoria realizada nas contas da autarquia e que era a voz do superintendente Ibrahim Faouzi El Kadi no áudio que o HOJE teve acesso.

 

Faouzi também aponta possível benefício a grandes consumidores

 

Outro ponto fortemente exacerbado pelo superintendente Ibrahim Faouzi foi o possível benefício a grandes consumidores de água no município. Em um deles, afirma que foi possível renegociar o formato de cobrança adotado em anos anteriores, e que dessa forma a autarquia conseguiu coibir a irregularidade na métrica de consumo do insumo.

“Tudo que o Tribunal de Contas, Ministério Público e a Sabesp pediram a gente está atendendo. Tem R$ 1,2 bilhão de grandes consumidores que não foram cobrados. A gente mandou a carta para os 100 maiores devedores e apenas 5 vieram aqui. Eles pagavam R$ 8 mil e com o hidrômetro foi R$ 400. Eles deixavam de pagar R$ 392 mil por mês”, explicou.

O dirigente também revelou que aproximadamente 250 empresas, sem detalhar quais eram, tinham desconto incondicional automático no sistema de 40% pelo tratamento de esgoto, além de ressaltar as dívidas prescritas por superar o período legal de 10 anos para sua cobrança, já que muitas delas, segundo ele, tinham quase 15 anos.

O Saae informou ainda que, além da cobrança sobre os grandes consumidores, começou a cobrar pela coleta de esgoto de empresas que usam fontes de água alternativas, como caminhões-pipa e poços profundos, e que o TCE-SP e o Ministério Público estabeleceram que a autarquia deveria cobrar as dívidas dos grandes consumidores, que giram em torno de R$ 250 milhões, o que está sendo feito.

Antônio Boaventura

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Foto: Ivanildo Porto