Comida no aeroporto custa mais do que o dobro da rodoviária da cidade

Reportagem: Wellington Alves

Viajar de avião tem se tornado cada vez mais popular. No ano passado, o Aeroporto Internacional de Guarulhos/São Paulo registrou movimentação de mais de 42 milhões de pessoas, um recorde na aviação civil nacional. Mas se o custo do transporte parece ser cada vez mais acessível, o quadro é bem diferente quando se leva em conta a alimentação nesses locais.

Os alimentos no aeroporto custam, em média, mais do que o dobro do que os vendidos na Rodoviária de Guarulhos, no Parque Cecap, que dá acesso à estação Guarulhos-Cecap, da Linha 13-Jade da CPTM. Para os passageiros, é comum pagar caro para comer pouco.

A reportagem constatou que um pão de queijo custa R$ 6,50 no aeroporto. Na rodoviária, sai por R$ 3. Um suco simples é adquirido por R$ 9,50 no saguão do aeroporto, superior aos R$ 5 da rodoviária. No terminal de ônibus, um x-burguer é comercializado por R$ 7. Já no aeroporto, um misto com presunto e queijo é vendido por R$ 18.

Os passageiros consideram injustos os preços praticados, mas não têm formas de evitar a situação. A jornalista Francislene dos Santos, por exemplo, estava indo à Brasília. Ela pagou R$ 19,90 por um café com leite grande e dois pães de queijo. Se escolhesse só um pão de queijo, pagaria R$ 16. “Eu sempre achei aeroporto um local inacessível. Uma água custar de R$ 5 a R$ 7 é algo fora da realidade para a maioria das pessoas”, afirmou.

Já a antropóloga Maria das Graças, além de reclamar dos altos preços, também demonstrou descontentamento com o atendimento oferecido. “Pedi um capuccino no com creme. Pague R$ 17,50 e depois a funcionária da loja informou que não tinha creme. Um valor desse por um café é absurdo”, apontou. A antropóloga veio visitar o filho em São Paulo e avalia que os preços dos alimentos se repetem na maioria dos aeroportos.

Funcionários costumam se alimentar em outros bairros

O alto custo da alimentação é um fator preocupante para os funcionários do Aeroporto Internacional de Guarulhos/São Paulo. Muitos levam marmitas para economizar. Outros compram marmitex. A minoria vai a bairros vizinhos, como Cumbica, para ter acesso a um almoço feito na hora e mais barato.

“Dependendo de quanto a pessoa ganha não dá para comer”, afirmou um funcionário que trabalha no aeroporto há 20 anos, e pediu para não ser identificado. Em um lanche à tarde, ele gastou R$ 25 por um chá, um pão de queijo e um pedaço de bolo. “Os lojistas reclamam do aluguel, mas um lanche desse deveria custar no máximo R$ 10”, avalia.

Até 2013, muitos funcionários se deslocavam até os bairros Cidade Seródio, Haroldo Veloso e Jardim São João para almoçar. Esse trajeto ficou prejudicado quando a GRU Airport fechou a ponte de acesso entre o território aeroportuário e a Avenida Jamil João Zarif.

Especialista aponta razões pelos preços caros, que vão continuar

Após bater o recorde de passageiros em 2018, o GRU Airport avalia que pode crescer ainda mais o número de pessoas que se movimenta pelo aeroporto. Estudos de viabilidade econômica apontam que o estabelecimento tem potencial para atender mais de 50 milhões de viajantes por ano. Essa expansão, contudo, não deve deixar os preços dos alimentos mais baratos.

De acordo com o economista Antônio Azambuja, professor do Centro Universitário Sumaré, o aeroporto gera custos muito maiores do que uma rodoviária, o que acaba repassado nos preços aos passageiros. “O custo de instalação no aeroporto é mais caro. Um funcionário bilíngue também exige salário maior. Existe ainda a taxa de condomínio pelos serviços de segurança e limpeza de qualidade superior”, exemplifica.

Para o especialista, os passageiros ou funcionários podem usar outras estratégias, como levar comida ou ir a outros lugares. “No aeroporto vai ser sempre mais caro”, apontou.

Segundo o GRU Airport, aos lojistas do Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos é cobrada apenas a mensalidade da locação e o condomínio, que equivale a cerca de 15% do valor médio cobrado por um shopping de alto padrão da cidade de São Paulo.       

Há cerca de 180 restaurantes no aeroporto, incluindo os quiosques e carrinhos de sorvete e outros tipos de guloseimas. De acordo com a concessionária, os funcionários têm acesso a descontos em todos os estabelecimentos comerciais e há um restaurante com preços mais acessíveis no piso terreno, no Terminal 2.

Foto: Ivanildo Porto