Artistas opinam como situação do Pantanal pode afetar nova versão da novela

No começo deste ano, a atriz Ingra Lyberato levou o filho, Guilherme, de 17 anos, para conhecer o Pantanal. Os dois tiveram como cicerone o cantor e compositor campo-grandense Almir Sater, que tem uma fazenda na beira do Rio Negro. Ingra queria dar ao filho o aprendizado que teve há 30 anos, quando participou da novela Pantanal, de Benedito Ruy Barbosa, na extinta TV Manchete “Como alguém que vai mostrar Paris ou Nova York para um filho, fui mostrar o Pantanal. A natureza nos ensina sobre relacionamento, força, limite”, diz.

Assim como Ingra viveu e ensinou essa experiência ao filho, o remake de Pantanal, recentemente anunciado pela TV Globo para 2021, cria a expectativa de um novo encantamento com a região – que, no entanto, sofre com queimadas e a perda significativa de seu bioma. De acordo com dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre 1º de janeiro e 30 de setembro de 2020, já foram registrados 18.259 focos de incêndio na região – o maior desde o início da série histórica medida pelo instituto, em 1998. É o terceiro bioma brasileiro mais atingido, atrás da Amazônia e do cerrado. Entre 1990, ano que a novela foi ao ar, e 2019, o Pantanal perdeu 10% de sua vegetação nativa, segundo o projeto MapBiomas.

A assessoria de comunicação da TV Globo afirma que a novela, que terá texto assinado por Bruno Luperi, neto de Benedito, e direção artística de Rogério Gomes, ainda não entrou em pré-produção e, por isso, não pode responder se as cenas serão gravadas majoritariamente no Pantanal, assim como na primeira versão, e que nenhuma locação foi escolhida. A reportagem do Estadão também perguntou a Luperi se as queimadas e a degradação da região ao longo dos anos serão abordadas no remake, mas não obteve resposta.

Sobre a nova versão, Luperi enviou a seguinte declaração: “Essa adaptação tem como principal meta ser fiel aos preceitos estabelecidos pela versão original. Tanto pelo respeito que temos ao Benedito e pela qualidade de sua obra quanto pelo público de uma forma geral, que preserva a obra viva em sua memória e seu imaginário depois de 30 anos. A sociedade é dinâmica. E o tempo, um agente fundamental no processo de maturação, compreensão e percepção do nosso comportamento e cultura. Não que ele irá mudar os personagens, pois ele não vai – e nem precisa. Mas ele, o tempo, nos dará a oportunidade para enxergarmos os personagens sob uma nova perspectiva, quem sabe, de uma forma ainda mais profunda”.

Nessa recente viagem ao Pantanal, Ingra tomou banho de rio – que já não tinha tanto peixe quanto há três décadas – e demorou dias para avistar um tuiuiú, ave-símbolo da região. Cenário diferente da época em que, com 23 anos, desembarcou ali pela primeira vez para dar vida a Madeleine, quando sentiu “uma epifania” ao se deparar com a paisagem pantaneira. “Qualquer pessoa que chegue lá será sacudida pela potência da floresta, dos animais. Foi como se eu estivesse no momento em que o mundo estava sendo criado. Tudo perde o sentido diante do bem-viver e do equilíbrio que existe lá.”

A atriz afirma que essa sensação perdura até hoje e foi determinante para algumas escolhas que fez para a vida. “É um sentimento que pode ser acessado a qualquer momento. O contato com a natureza é cura”, acredita Ingra, que recentemente lançou o livro A Natureza Oculta Iluminada. Ela defende uma alimentação mais saudável e as agroflorestas. “O resgate do plantio combinado de frutos, grãos e árvores será a próxima revolução produtiva. Um reflorestamento dentro e fora de cada um de nós.”

O ator Marcos Palmeira, que viveu o peão Tadeu, igualmente mudou sua visão sobre a alimentação na época da novela, com o incentivo de Cássia Kis. “A convivência com uma natureza exuberante e com os animais também agregou. A relação com os peões no dia a dia, idem. A melhor cara do Brasil está no campo, nos homens simples”, diz. Há mais de 20 anos Palmeira se dedica ao Vale das Palmeiras, uma fazenda em Teresópolis, no Rio de Janeiro, na qual ele produz leite e derivados orgânicos.

Para o ator, será inevitável que o remake de 2021 aborde questões como as queimadas e o desmatamento na região. “Acredito que não há como fugir da realidade”, diz. Ele afirma que Benedito Ruy Barbosa “tem a política muito forte dentro dele” e que, na versão original, além de mostrar as belezas do lugar, também denunciou o drama dos trabalhadores da região. Palmeira considera a situação atual do Pantanal “triste” e se mostra cético em relação à atuação do governo federal para coibir os incêndios. “Vivemos hoje uma situação complexa, onde o governo (federal) está do lado do desmatamento. Isso é muito louco! E nega, faz um discurso absurdo. É muito triste o que está acontecendo com o Pantanal. O Brasil não merece isso.”

Pantanal, que estreou em 27 de março de 1990, de fato, tinha esse chamado para o meio ambiente. Uma reportagem do Caderno 2 no Estadão dizia que os humanos teriam papéis secundários na trama de Benedito Ruy Barbosa: a natureza seria a protagonista nos 216 capítulos. A ideia do autor era mostrar ao Brasil, no Ano Internacional do Meio Ambiente, o rico bioma da região, com toques de realismo fantástico, em contraste com a vida de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Além de fauna, flora, rios e planícies alagadas, a trama criada por Benedito (que, na época, foi rejeitada pela Globo) reunia elementos típicos de um “novelão”, com amores impossíveis, vinganças e injustiças.

A história partia dos descendentes de uma sem-terra, Maria Marruá (Cássia Kis), e do pantaneiro José Leôncio (Paulo Gorgulho/Cláudio Marzo). Soma-se a isso a inovação trazida pelo diretor Jayme Monjardim, que mexeu nas cores das câmeras para retratar a exuberância da natureza de forma mais real e imprimiu um tratamento cinematográfico à novela, com planos abertos e cenas mais lentas, que pareciam acompanhar o ritmo da guarânia Chalana. A música dos anos 1940, de autoria de Mario Zan e Arlindo Pinto, foi gravada por Almir Sater a pedido de Benedito

Foi nesse cenário que a atriz Cristiana Oliveira, em início de carreira, concebeu a personagem mais forte da trama: Juma Marruá, filha de Maria (Cássia Kis), que vivia sozinha em uma tapera e se transformava em onça ao sinal de perigo.

Cristiana diz que entendeu como Juma era lá no Pantanal, de um dia para o outro. Já com o figurino, foi para a frente do espelho. Partiu o cabelo ao meio e percebeu que o olhar de um bicho era algo de baixo para cima. “Comecei a caminhar descalça naquela maravilha de natureza e a sentir a alma do lugar. Eu estava tão dentro da Juma e ela dentro de mim que, na cena da morte da Maria Marruá, eu carreguei a Cássia Kis no colo, mesmo não tendo força para isso. O texto era racional, mas tudo que foi nascendo – os trejeitos, o olhar, o sotaque – não. Nem técnica eu tinha na época. Foi pura emoção.”

Cristiana acredita que a questão das queimadas será abordada na nova versão da trama e, apesar de a adaptação estar a cargo do neto de Barbosa, o autor dará seus pitacos. “Benedito está com 90 anos, mas muito lúcido. Foi uma obra que ele lutou muito para colocar no ar na época e agora novamente. Não será à toa.”

Nascido em Campo Grande (MS), o cantor e compositor Almir Sater foi convencido pelo amigo e cantor Sérgio Reis a participar da primeira versão da novela, na qual interpretou o violeiro Trindade. Na época, ele estava com um trabalho engatilhado nos Estados Unidos como músico. Porém, a paixão pelo Pantanal, que ele conheceu ainda criança, falou mais alto. Esse amor também fez com que ele comprasse uma fazenda em Aquidauana, na beira do Rio Negro, bem próxima à principal locação da novela, a fazenda do Zé Leôncio. “Sempre gostei desse lugar”, conta o músico, que costuma passar a época de seca por lá e a de cheia na Serra da Cantareira, em São Paulo. A região onde ele vive não foi atingida pelo fogo.

Sater acredita que o Pantanal não corre perigo, apesar de os dados mostrarem o aumento dos incêndios na região. “O Pantanal mesmo se defende”, diz. “Há fazendas que vão ficando com pouco gado – por situação econômica ou por áreas que são cercadas para preservação. E o gado, apesar da controvérsia, é muito bom para o Pantanal. É ele que come o capim, ele dosa o crescimento, porque, quando essa vegetação cresce muito, qualquer coisa acende fogo: uma moto velha passando, um trator velho soltando fagulha, um caco de vidro…”

O músico diz que a novela trouxe inúmeros benefícios para a região, como o desenvolvimento do turismo ao mostrar a intimidade do Pantanal para o Brasil e para o mundo. “Hoje todos nós nos preocupamos com ele, com os problemas que o atingem.”