Voz esquecida pelo blues é encenada em filme com Viola Davis e Chadwick Boseman

Ma Rainey sabia que só teria aqueles brancos engravatados nas mãos até o instante em que sua voz fosse registrada como eles queriam na massa esférica de goma-laca que girava em 78 rotações por minuto e que começava a vender tanto quanto os pães quentes da Weber’s Bakery de Chicago. Ela sabia que eles a tratariam como uma rainha, pagariam sua Coca-Cola gelada, a colocariam sentada na melhor poltrona do estúdio e deixariam o único ventilador General Eletric da companhia bem a seu lado para refrescá-la enquanto os músicos se preparavam. Tudo do bom e do melhor para Ma Rainey até a luz vermelha do estúdio se apagar e a gravação ser finalizada. Aí, então, os empresários brancos lhe pagariam 200 dólares e a fariam assinar uma cessão de direitos autorais de toda a alma que ela havia acabado de deixar naquelas canções. Dariam 25 dólares a cada um dos músicos negros que passaram a tarde a seu lado na sessão, chamariam um táxi e sorririam para ela pela última vez.

Por isso, Ma Rainey cobrava caro por cada minuto do tempo compreendido entre sua chegada ao estúdio e o término das gravações. “Essa mulher é insuportável”, você pode pensar nos primeiros minutos ao vê-la sendo interpretada por Viola Davis no filme Ma Rainey’s Black Bottom, que na Netflix do Brasil chegou como A Voz Suprema do Blues.

Mas não. Se os bem-vestidos executivos queriam mesmo sua voz, uma das maiores vendedoras de discos no mercado dos “race records”, a forma como os norte-americanos não negros passaram a chamar o mercado alimentado por artistas de blues negros dos anos 1920 e consumido por famílias negras que já estavam no norte ou que haviam acabado de chegar do sul esperando em vão encontrar uma terra com pessoas que não os enforcassem nas árvores ou os apedrejassem nas ruas, eles teriam de satisfazer seus desejos. O reinado de Rainey duraria pouco, até a gravação terminar e ela voltar a ser a mulher negra, gorda e bissexual que até a história do próprio blues decidiu apagar de seus arquivos.

Mas os negros norte-americanos seguem em seu revisionismo histórico colocando Ma Rainey como a voz da vez graças a esse esplêndido projeto bancado por um conjunto de homens negros e mulheres negras poderosas que nem o pós-segregacionismo cultural dos Estados Unidos pode impedir de estarem onde estão.

Com um bom dinheiro de Denzel Washington, um dos produtores ao lado de Todd Black e Dany Wolf, e mais Viola como Ma, Chadwick Boseman como o trompetista fictício Levee e uma gig de atores tão espetacular quanto as jam sessions invisíveis dos anos 1930, com Glynn Turman como o pianista Toledo, Colman Domingo como o trombonista Cutler e Michael Potts como o baixista Slow Drag, o texto do dramaturgo das questões raciais August Wilson foi parar nas mãos do diretor George C. Wolfe e se tornou uma preciosidade alentadora a um ambiente tão desesperadoramente comercial quanto a Netflix.

Dois rostos de uma era

São dois os eixos dramáticos cruzados em um estúdio de gravação de Chicago dos anos 1920. De um lado, Ma Rainey, que chega como um colosso para colocar a voz em um novo álbum trazendo sua sobrevivência na pele suada, nos dentes platinados e nos olhos cansados e de maquiagem desfeita. Do outro, seu trompetista Levee (Boseman em atuação memorável), filho de pai assassinado por brancos e sonhador por ser como Ma: um rei, ao menos, enquanto estiver sobre um palco. Mas Levee, diferentemente de Ma, deixa seu ódio o engolir. Ele nem sequer toca bem (e reparem, trompetistas, como sua digitação nas válvulas do instrumento preparada por Branford Marsalis parece propositalmente malfeita).

Seu justiçamento é para ontem e a música é tudo o que lhe resta. Ma não. Ela até se diverte por trás de sua estratégia de vingança saborosa, tratando brancos como panos de chão e retardando ao máximo a entrega de suas gravações. Ma exige que a locução da primeira música seja feita por um garoto negro e gago que ela leva do sul. Ele erra por dezenas de vezes e, a cada erro, é um disco de goma-laca jogado no lixo. Ma então pergunta onde está sua Coca-Cola. O executivo da gravadora diz que se esqueceu de comprar. Ela para a gravação e diz que só segue em frente depois de tomar a sua bendita Coca-Cola. Eles que se virem.

Muito menos revista do que Bessie Smith (que bebeu em sua fonte e, dizem em Chicago, a namorou), Ma Rainey é a ponta da tenda submersa onde centenas de outras mulheres se apresentaram antes mesmo dos anos 1920, mas que jamais tiveram o mesmo espaço mesmo quando poderiam ter sido resgatadas com a chegada dos anos 1970, quando os garotos brancos ingleses do rock começaram a roubar o blues dos negros norte-americanos que a história havia enterrado como indigentes (o caso mais flagrante é do Led Zeppelin) ou mesmo a regravá-los reverencialmente, como o recém-negacionista Eric Clapton, o Who, os Faces e os Rolling Stones.

Ninguém quis saber das mulheres, e olha que registros delas não faltavam. Rosetta Tharpe, nascida em 1915, era, além de cantora, uma guitarrista formidável que influenciou apenas BB King e Elvis Presley. Mamie Smith, nascida em 1883, gravou Crazy Blues em 1920 e passou a ser chamada de Imperatriz do Blues. Graças a seu sucesso no meio dos “race records”, as gravadoras passaram a procurar nomes como os de Bertha Hill, Bessie e a própria Ma Rainey. A geração seguinte teria Alberta Hunter, Koko Taylor, Etta James, Marva Wright.

Por mais tentador que seja, não dá para falar aqui de Billie Holiday, Nina Simone e Ella Fitzgerald. Saídas do mesmo barro do gospel e do blues, essas mulheres migraram rapidamente para o jazz, e lá a história é outra. Além da segmentação racial, o advento do jazz criou mais uma barreira segregacionista entre os próprios negros. Cantoras de blues, para muitos deles, não tinham dons para encarar o jazz. Algo equivalente no Brasil a uma cantora de samba chegando a um dos apartamentos em que rolava bossa nova na zona sul do Rio. Nem entraria. Assim, a história só reservaria a elas os restos do assado, subestimando o prato que poderiam criar com eles.

Espelho para Bessie

Não dá para ficar procurando o que é ficção e o que é realidade no filme de George Wolfe. Nada e tudo o que está ali de fato aconteceu. E o que não aconteceu poderia ter acontecido. E quem pode dizer o que realmente não aconteceu? Por não se tratar de uma biografia de Ma Rainey, vamos a um pouco dela: seu nome era Gertrude Malissa Nix Pridgett Rainey, nascida a 26 de abril de 1886 em Columbus, Geórgia. Ainda adolescente, descobriu que o palco seria sua casa e seguiu viajando com espetáculos de vaudeville até 1904, quando se casou com o também artista William “Pa” Rainey. Juntos, Ma e Pa passaram a ser conhecidos como os Assassinos do Blues, algo que, entre os músicos, não tinha conotação policialesca. Assassinos no sentido de “quebrarem tudo em cena.” Até Bessie Smith, e isso não está registrado, teria cantado em seu grupo itinerante por esses anos

Ma se separa de William em 1916 e segue com uma companhia de espetáculos própria chamada Madame Gertrude Ma Rainey e Her Georgia Smart Set. É contratada pela gravadora Paramount em 1923 (é esse o momento de sua vida em que a sessão de gravação do filme se passa) e chega a fazer cerca de 100 registros, cedendo seus direitos das vendagens dos álbuns à gravadora. São dessa época Moonshine Blues, See See Rider, Trust No Man e, claro, Ma Rainey’s Black Botton. Ma volta para a cidade de Columbus depois de deixar os palcos, em 1935, para se envolver com a igreja protestante local e administrar dois estabelecimentos de entretenimento. Quatro anos depois de seu retorno, ela morre vítima de um ataque cardíaco. E 80 anos depois, é encontrada viva dentro de Viola Davis.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.