Série ‘We Are Who We are’ fala sobre crescimento, sexualidade e fluidez de gênero

À primeira vista, We Are Who We Are até pode se parecer com Me Chame pelo Seu Nome (2017), vencedor do Oscar de roteiro adaptado. Ambos são dirigidos por Luca Guadagnino, têm como cenário idílicas paisagens italianas durante o verão e adolescentes como protagonistas. Mas, na verdade, a comparação é preguiçosa, não só porque Me Chame pelo Seu Nome é um longa de 132 minutos, enquanto We Are Who We Are, exibido às segundas na HBO, às 23h, é uma série em oito episódios, a primeira do diretor italiano. E não só porque a ação do filme é nos anos 1980, e a série se passa em 2016. Mas também porque Elio (Timothée Chalamet), com pais compreensivos e intelectuais, não tem muito a ver com o rebelde Fraser (Jack Dylan Grazer), o menino com duas mães – a nova comandante da base americana em Chioggia, Sarah (Chloë Sevigny), e sua mulher, a brasileira e enfermeira do Exército dos EUA, Maggie (Alice Braga). Fora isso, Fraser é apenas um dos dois protagonistas. A outra é Caitlin (Jordan Kristine Seamón), que também mora na base.

A escolha de uma base militar americana na Itália como cenário é, em si, interessante. A base é um símbolo de deslocamento, um pedaço de Estados Unidos na Itália. Para Fraser, que acabou de se mudar de Nova York, é a morte. “Para qualquer adolescente, crescer numa espécie de gaiola é estranho. Você se sente um pária. Aqui é amplificado porque esses jovens estão longe de casa e precisam descobrir quem são”, disse Grazer em entrevista com a participação do Estadão. “Fraser sente não ter nada. Mas uma hora ele vai se descobrir de uma maneira muito mais completa do que quando estava em Nova York.”

No caso de Fraser, isso significa lidar com a própria sexualidade e com a relação complicada com sua mãe Sarah, que já estava grávida quando conheceu Maggie. Para Caitlin, filha de um militar conservador (Kid Cudi), é entender o conceito de gênero – secretamente, ela coloca camisas largas e prende o cabelo comprido, apresentando-se como menino. “Fazer Caitlin me ensinou sobre diferentes estilos de vida e as dificuldades que isso implica”, afirmou Seamón. A atriz de 17 anos acha importante fazer esse tipo de personagem na TV. “Não é comum ver na TV jovens, especialmente negros, questionando sua identidade de gênero e fluidez de gênero. Espero que a série ajude outros jovens que estão passando por isso a se sentir menos sozinhos.”

Em We Are Who We Are, Guadagnino está menos interessado na ação do que no comportamento, no espaço e nas interações. Fraser e Caitlin tornam-se inseparáveis. Mas não só. Era fundamental que todo o grupo de adolescentes parecesse real. Além de Seamón e Grazer, há Spence Moore II no papel de Danny, o agressivo irmão de Caitlin, e Francesca Scorsese – filha do cineasta – como a desbocada e liberada Britney, entre outros. “Fui para a Itália cerca de um mês antes, fiquei amiga de todos”, contou Seamón.

Escolher uma base americana durante a eleição de 2016 certamente não foi algo aleatório. Grazer vê uma relação disso com o estado mental de Fraser. “Na época, as pessoas estavam com medo do futuro”, explicou o ator de 17 anos, que tinha 13 na vitória de Donald Trump.

Ao falar de crescimento, sexualidade e fluidez de gênero de adolescentes, Luca Guadagnino abre espaço para leitura mais ampla sobre o estado do mundo em geral e dos Estados Unidos em particular.