SP anuncia acordo com laboratório chinês para testar e produzir vacina

O governador João Doria (PSDB) anunciou ontem que o Instituto Butantã, do governo paulista, fechou parceria com um laboratório chinês para testar e produzir uma vacina contra o novo coronavírus. O imunizante está na fase 3 – a última antes da aprovação -, e o acordo prevê testes clínicos no País com 9 mil voluntários a partir do mês que vem. Segundo Doria, se a eficácia da vacina for comprovada, a tecnologia poderá ser fornecida para o sistema público do País para produção em larga escala já no primeiro semestre de 2021.

“O mundo contabiliza mais de cem vacinas em desenvolvimento, mas apenas dez atingiram a fase de testes. A vacina do Instituto Butantã, em parceria com a Sinovac Biotech, pode estar disponível no primeiro semestre de 2021, e com ela poderemos imunizar milhões de brasileiros”, comentou o governador, em entrevista coletiva ao lado de Dimas Covas, diretor do Butantã. O imunizante foi batizado de coronavac.

De acordo com Dimas, a vacina passou pelas fases 1 e 2 na China. “É uma das vacinas mais avançadas (em desenvolvimento). Ela contém fragmentos do vírus e tem uma tecnologia que o Butantã domina. A da dengue já é produzida assim, e por isso a oportunidade deste acordo.”

A vacina é formada pelo vírus Sars-CoV-2 isolado, multiplicado e inativado no laboratório chinês. Segundo o microbiólogo e virologista Rômulo Neris, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a ideia das vacinas é apresentar para o organismo pedaços ou agente infeccioso inteiro antes da infecção para que o nosso sistema imune desenvolva uma “memória” imunológica e consiga gerar uma resposta mais rápida quando a gente for de fato infectado.

Dimas explicou que os testes iniciais foram feitos em macacos e os resultados, publicados na Revista Science. Depois, o imunizante foi testado na China com 144 voluntários e agora outros 600 são acompanhados, segundo o diretor do Butantã. “Até a fase 2, ela se mostrou muito efetiva. Agora temos o desafio de campo, ver se protege e qual é o grau de proteção dela.”

A fase de estudos clínicos custará R$ 85 milhões ao governo do Estado de São Paulo. Os grupos prioritários para aplicação da vacina devem ser os de maior risco, como idosos e pacientes com comorbidades, segundo o governo do Estado.

Confirmada a eficácia, a vacina terá de ser registrada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Num primeiro momento, ela pode vir da China e depois passará a ser produzida em grande escala aqui pelo Butantã”, disse Dimas. Todos os imunizantes produzidos pelo Butantã são destinados ao programa nacional, promovido pelo governo federal por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

Testagem

O Brasil se tornou um bom local para a realização de testes de vacina porque é atualmente o epicentro da doença – o País registrou na última semana a maior média diária de mortos, acima dos Estados Unidos e do Reino Unido.

“Em breve, teremos a resposta que toda a comunidade científica espera ter. Essa vacina deve ter uma eficácia importante, de pelo menos 85%. Nas fases 1 e 2, ela apresentou essa superioridade. Agora precisamos ver como vai se comportar com os voluntários”, afirmou Sergio Cimerman, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e colunista do Estadão, que participou da entrevista a convite de Doria.

Ex-secretário executivo do Ministério da Saúde e atualmente membro do Centro de Contingência contra a covid-19, João Gabbardo mostrou-se preocupado com os movimentos antivacinas, que cresceram nos últimos anos na esteira da polarização política. “Espero que, dentro desse processo de polarização que a gente passa diariamente, não se crie um movimento contra a vacinação. Espero que a gente tenha a união do País. E que nós tenhamos a possibilidade de proteger nossa população”, disse Gabbardo. (Colaborou Gonçalo Júnior).