Número de mortos pelo coronavírus no Brasil supera o total de óbitos registrados em grandes tragédias mundiais

Nesta quarta-feira (24) o Brasil atingiu a marca de 301.087 mortos em decorrência do novo coronavírus. O número de óbitos foi de 2.244 em 24 horas e a média diária móvel está em 2.279 (três vítimas a cada dois minutos). O total é assustadoramente superior a grandes tragédias vistas no Brasil e no mundo.

Em 2013 um incêndio na boate Kiss, na cidade de Santa Maria (RS), chocou os brasileiros. No entanto, foram contabilizados 242 mortos e 680 feridos. Em janeiro de 2019 o Brasil acompanhou o drama de Brumadinho (MG) com o rompimento da barragem da mineradora Vale – resultando em 259 mortos e 11 desaparecidos.

O número de vítimas pela covid-19 é superior ao total de mortos nas chuvas e deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011 (917 mortos e 345 desaparecidos) e no incêndio no Gran Circus Norte-Americano, em 1961 (503 mortos e mais de 300 feridos).

A doença também supera outras tragédias ainda presentes na memória dos brasileiros, como o acidente aéreo da Air France em 2009, com 228 mortos. Ou mesmo o incêndio no Edifício Joelma em 1974, em São Paulo, com 187 mortos e 300 feridos. E também o naufrágio do Bateau Mouche em 1989, com 55 mortos.

Outra tragédia de comoção mundial foi o naufrágio do navio Titanic. O acidente resultou em 1.514 mortos, entre homens, mulheres e crianças.

No dia 11 de setembro de 2001 o mundo acompanho em choque o ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, nos Estados Unidos. Terroristas sequestraram dois aviões que se chocaram às torres deixando um total de 2.996 mortes, incluindo os 19 sequestradores e as 2.977 vítimas. O total de mortos contabiliza, ainda, o ataque ao Pentágono.

Covid

O descontrole da pandemia aqui tem reflexo no mundo. O Brasil completou na sexta-feira o período de duas semanas como o país com mais mortes diárias pela covid no mundo, apontam os dados da plataforma Our World in Data, ligada à Universidade de Oxford (Reino Unido). Nessa última semana, o Brasil foi responsável por 27% dos óbitos de todo o planeta. O País ultrapassou os Estados Unidos na sexta-feira, quando registrou 1,8 mil novos óbitos (ante 1.763 dos EUA). A partir daí, a diferença só aumentou.

A maior crise sanitária e hospitalar da história do País, na definição da Fiocruz, tem vários rostos por trás dos números. São pessoas que sofreram perdas – algumas evitáveis – relacionadas às diversas carências do Brasil no combate à pandemia. Em Bauru, a família do comerciante Marco Aurélio Oliveira precisou de uma medida judicial para conseguir uma vaga na UTI. Em São Paulo, Dalva Pereira resistiu à primeira internação no ano passado – neste ano teve outra complicação, aguardou três dias por vaga de UTI e morreu.

Para Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, nada indica que haverá retrocesso em breve. Ele aponta que a média móvel de mortes vai chegar a 3 mil “Quanto mais aguda a pandemia, maior é a politização e a falta de gerência da pandemia. Atingimos 300 mil óbitos no meio da troca no Ministério da Saúde. Temos um dos piores indicadores do mundo.”

Com postura negacionista ao longo da crise sanitária, críticas à quarentena, defesa de remédios sem eficácia contra a covid e promoção de aglomerações, o presidente Jair Bolsonaro tem sido criticado no Brasil e no exterior. Nesta semana, ele fez a terceira troca no comando do Ministério da Saúde. Sai o general Eduardo Pazuello, alvo de investigação por suspeita de omissão na resposta à crise hospitalar em Manaus em janeiro e responsável pelo encalhe de milhões de testes de covid perto da validade em armazém do governo federal. Chega agora o cardiologista Marcelo Queiroga, cujas primeiras declarações evitaram confrontar as ideias de Bolsonaro sobre o isolamento social.

Além das dificuldades de gestão, o Brasil convive com o avanço de novas variantes do vírus, como a de Manaus, que estudos já mostraram ser mais transmissível, e o ritmo lento da vacinação diante da falta de doses. “A questão que se coloca é: quando atingiremos 400 mil mortos, o que deve acontecer rapidamente. Teremos agora uma crise funerária”, alerta Domingos Alves.

Para Eliseu Waldman, epidemiologista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, a providência agora é tentar minimizar danos. “Uma medida importante a ser tomada é o lockdown em boa parte do País. Isso pode diminuir a transmissão do vírus e aliviar a pressão no sistema de saúde. Também é fundamental repor os insumos básicos e medicamentos, pois os médicos não terão condições de atender. E também precisamos acelerar o processo de vacinação, o que dificilmente deve ocorrer.”