“Vamos resgatar em 100 dias a credibilidade do guarulhense com o governo”, afirma Guti

“Vamos resgatar em 100 dias a credibilidade do guarulhense com o governo”. É assim que prefeito eleito Guti (PSB) começará seu governo a partir do dia 1° de janeiro de 2017. Eleito com 481.541 votos, o que corresponde a 83,50% dos votos válidos, ele promete retirar Guarulhos da crise financeira que se encontra e retomar o crescimento como a segunda maior cidade do estado.

Em 2008, quando ingressou na política, ele foi eleito o vereador mais jovem da cidade com 2.478 votos. Com apenas 23 anos, Guti se tornou o parlamentar mais atuante na Câmara Municipal e quatro anos depois, mais que dobrou a votação, alcançando os expressivos 5.127 votos. Durante as eleições de 2014, Guti lançou sua candidatura para deputado federal. Apesar da campanha pequena, os significativos 47.485 votos o consolidaram como maior expoente da oposição em Guarulhos. Atualmente é o presidente municipal do PSB-Guarulhos.

O prefeito eleito recebeu o HOJE em seu escritório, na região central, para uma conversa sobre os principais desafios que enfrentará nos próximos quatro anos na administração da cidade. Abaixo os melhores trechos dessa entrevista exclusiva.

HOJE – Como foi para você ter sido eleito tão jovem e com uma expressiva votação?
Guti – Na rua no segundo turno eu já sentia um clamor da população muito grande, mas eu tenho por princípio jamais comemorar algo que não tenho certeza. Por mais que os indícios fossem maravilhosos, colocamos os pés no chão e trabalhamos muito. No domingo da eleição foi maravilhoso ver que ganhamos e bem, mas na segunda-feira quando vemos que quase 500 mil pessoas estão esperando o melhor sabemos que a cobrança será muito grande. Tenho consciência disso por isso curti bastante o domingo porque na segunda sabia que seria só cobrança.

HOJE – Guarulhos enfrenta sérios problemas financeiros. Qual será sua primeira medida para resolver isso?
Guti – A primeira coisa será o enxugamento da máquina. Eu falei isso durante toda a minha campanha e isso tem que se concretizar agora em janeiro. Vamos enxugar a máquina em, no mínimo 30%, e isso inclui secretarias, coordenadorias e também os comissionados, além de reavaliar todos os concursados porque muitas vezes existem setores com poucas pessoas.

HOJE – Somente isso será suficiente para erguer as finanças da cidade?
Guti – Também é necessária uma auditoria em todos os contratos. Sabemos que existem contratos que não tem razão de existir e não trazem nenhum benefício para a população. Então precisamos de toda essa auditoria para ter noção de onde os recursos estão sendo investidos para saber se estão sendo investidos de maneira errada para que sejam corrigidos.

HOJE – O que esperar dos primeiros 100 dias do seu governo?
Guti – Nos primeiros 100 dias é que a gente vai ter que mostrar para a população de fato o que queremos fazer. Serão os dias que ditarão todo o resto do governo. Não vamos efetivamente conseguir resolver os grandes problemas da cidade, mas vamos resgatar em 100 dias a credibilidade do guarulhense com o governo que infelizmente não existe.

HOJE – Quais serão as obras principais nesse primeiro ano?
Guti – O que sempre falei desde o início da campanha foi que primeiro vamos finalizar as obras já existentes, sobretudo de Saúde e Mobilidade Urbana. Precisamos fazer funcionar o que a gente já tem para depois pensar em um novo passo.

HOJE – Guarulhos foi contemplada com diversos recursos do governo federal, até mesmo emendas parlamentares, que não vieram para a cidade por problemas da atual administração. Como reverter essa situação?
Guti – Muitas vezes o município acaba perdendo recursos pela falta de planejamento. Pensando nisso queremos ter um escritório da prefeitura em Brasília para que consiga rapidamente detectar quais os novos programas do governo federal e o que podemos fazer para conseguir aderir a eles e trazer recursos para Guarulhos.

HOJE – Quais serão suas prioridades na área da Mobilidade Urbana?
Guti – Vamos reavaliar e estudar todas as linhas existentes, fiscalizá-las porque faltam ônibus e muitas vezes é porque o número entregue está menor que o contratado. Precisamos fiscalizar se de fato está ocorrendo alguma irregularidade. Além disso, queremos um terminal de ônibus na região central que possibilitaria desafogar o trânsito.

HOJE – A maior dívida da cidade é entre o Saae e a Sabesp que gera inúmeros transtornos para a população, como a constante falta de água. Como resolver esse problema?
Guti – A única maneira é renegociar a dívida. Hoje a cidade paga praticamente a parcela dos juros.

HOJE – Não seria melhor repassar a Sabesp a gestão do saneamento da cidade?
Guti – O Saae se bem trabalhado pode ser superavitário, mas para isso precisamos ter uma agenda de crescimento bem desenvolvida. Seria uma solução para o município repassar para a Sabesp, mas não pensamos nisso porque há condições reais de recuperar o Saae.

HOJE – Ainda sobre o Saae a prefeitura sempre enalteceu o tratamento de esgotos que seria de 50% com as três ETEs construídas. No entanto, sabemos que o número não chega a 6%. O senhor acredita que Guarulhos foi enganada?
Guti – Com certeza foi muito mal gerido porque todos os recursos foram paralisados na construção das ETEs. O correto seria construir uma ETE e fazer as ligações entre ela e as residências. Depois que isso fosse feito aí sim partir para uma próxima ETE. Mas o atual governo quis mostrar a construção de três ETEs que na prática não funciona para nada. Agora a nossa função é fazer funcionar.

HOJE – Como mudar isso?
Guti – Precisamos fazer a parceria Público-Privada funcionar para que consigamos levar o esgoto da casa das pessoas até as ETEs.

HOJE – Enquanto vereador você foi muito crítico aos constantes atrasos na entrega dos uniformes e kits de materiais escolares. Para 2017 a situação será outra?
Guti – Batalhei muito sobre isso e é inadmissível atrasar a entrega de uniformes e materiais escolares. Obviamente que todo o processo para o ano que vem foi iniciado nesse antigo governo, mas a minha equipe de transição está acompanhando de perto para que a gente não tenha maiores problemas e consiga entregar no máximo no primeiro trimestre.

HOJE – A Secretaria de Educação tem diversas obras paradas entre creches e CEUs. O senhor vai retomá-las?
Guti – As obras em andamento que estão paradas serão as que vamos focar porque já existem recursos públicos destinados, então não podemos parar e começar um novo projeto, isso seria irresponsabilidade. As creches precisam ser finalizadas porque temos um déficit de vagas. Para isso também precisamos avançar em parcerias com a iniciativa privada e o terceiro setor para que consigamos zerar essa demanda por creche já no primeiro ano.

HOJE – Segundo o atual secretário de Saúde, Carlos Derman, as UPAs Paulista e Cumbica não serão entregues por que a prefeitura não pode contratar mais profissionais, já que a folha de pagamento do funcionalismo está quase atingindo os limites estipulados pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Qual será a solução para essa questão?
Guti – A equipe de transição está analisando a questão financeira de funcionalismo, porém quanto a contratação de médicos existe uma saída, que não atingirá a LRF, que são as Organizações Sociais de Saúde (OSS). Pensamos que a grande solução para isso seria delegar essas unidades para as OSS. A população não quer saber de que modo o médico chega, mas sim quer encontrar atendimento quando necessário.

HOJE – Há projetos para a construção de novos hospitais e outras unidades de saúde?
Guti – Por enquanto não. O que vamos fazer é buscar recursos junto ao Governo do Estado para alguns locais. Um exemplo é a unidade da mulher que está sendo construída no Hospital Jesus, José e Maria que precisa de recursos para ser finalizada e implementada. Vamos até o governo estadual para trazer novos próprios de saúde para o município, porém a prefeitura não investirá por enquanto em novos hospitais e UBSs.

HOJE – Como é seu relacionamento com os governos estadual e federal?
Guti – Posso dizer que com o governo federal já dialogamos bastante depois da minha eleição. Tenho a plena convicção que o governo do estado está totalmente aberto para nos auxiliar também. No entanto, sabemos que eles também atravessam questões financeiras problemáticas, porém acredito que essa aproximação e a necessidade de Guarulhos ter parado no tempo nessa relação nos fará correr muito para tirar o atraso e trazer muitos recursos para o município.

HOJE – Guarulhos sofre com muitas moradias irregulares. O que o senhor fará para resolver isso?
Guti – Todas as áreas e construções em situação de risco vamos atuar muito forte porque não podemos deixar que algo maior aconteça. Isso é responsabilidade pontual do prefeito e teremos fiscalização para isso, porém temos que reparar um problema social da habitação. Para isso precisamos de um programa sólido e o “Cidade Legal”, que é um projeto do governo do estado, vem nos auxiliar nesse sentido para que consigamos avançar nessa questão.

HOJE – Quais serão suas prioridades para o meio ambiente?
Guti – Temos que dar uma melhor atribuição a Secretaria de Meio Ambiente para que ela cuide das áreas verdes porque hoje é muito difícil conseguir uma poda, por exemplo. Além disso, vamos reequipar o meio ambiente que não serve somente para fazer exposições de orquídeas.

HOJE – Como o seu governo vai resgatar o orgulho do guarulhense quanto aos esportes?
Guti – Nossa equipe de transição está estudando a possibilidade de aumentar o orçamento destinado a Secretaria de Esportes para o ano que vem para que consigamos investir em esporte de base e amador, além de conseguir reparar, reconstruir e reformar os próprios do esporte.

HOJE – Quais serão os principais investimentos nessa área?
Guti – Para o esporte profissional vamos fazer parcerias com a iniciativa privada. O prefeito tem condição preponderante de fazer esse diálogo. Assim a empresa explora a sua marca comercialmente e o esporte profissional é custeado através dessa empresa. Não pretendemos investir nos dois primeiros anos no esporte profissional e sim no amador e de base.

HOJE – O futebol será uma prioridade?
Guti – Não vamos nos concentrar somente no futebol. Temos condição hoje de exportar o nome de Guarulhos para o Brasil e o mundo através de outros esportes como a ginástica, handebol e basquete, principalmente com as parcerias com o mundo corporativo.

HOJE – O Plano Diretor em vigor na cidade é de 2004 e deveria ser revisto em 2014, mas não foi. O senhor já está ciente desse atraso?
Guti – Teremos que revisar novamente, mas aproveitaremos todos os estudos que já foram feitos. Queremos discutir com a sociedade para fazermos o melhor, mas temos urgência porque ele já expirou.

HOJE – A Guarda Civil Municipal (GCM) demandará grandes investimentos, principalmente no que diz respeito às viaturas. Como resolver essa questão com um baixo orçamento?
Guti – Tínhamos a intenção de entregar os veículos que seriam utilizados pelos prefeito, secretários e adjuntos para que a GCM adequasse e os transformassem em viaturas, mas há problemas técnicos que inviabilizam isso. A saída será vender esses carros e utilizar o dinheiro para adquirir novas viaturas, porque a corporação precisa. Os secretários, adjuntos e eu andaremos com carros próprios e vamos vender a frota existente.

HOJE – Boa parte da frota hoje é alugada. No seu governo essa prática será mantida?
Guti – Não temos que ter preconceito com o aluguel. Muitas vezes ele é mais em conta dependendo do contrato firmado e pode trazer benefícios. Não sou totalmente contra o aluguel.

HOJE – Quais foram os critérios para a escolha do seu secretariado?
Guti – O primeiro quesito foi ter disponibilidade 24 horas por dia e sete dias por semana. Vão se dedicar tempo integral ao município tendo que, muitas vezes, abdicar de suas vidas pessoal e profissional. Todos tiveram que abdicar de sua vida profissional. Eles precisam ter correlação com a área e experiência. Além de ter essas caraterísticas eles têm que conversar muito com nosso plano de governo para implementar as mudanças que queremos.

HOJE – E se algum deles não corresponder?
Guti – Se não der resultado eles saem. Mesma coisa sou eu, se não der resultado só duro até a próxima eleição. Por isso, os secretários que não derem resultado sairão.