Quase 3 mil servidores do sistema penitenciário já foram afastados por transtornos mentais

Reportagem: Ulisses Carvalho
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O número de servidores do sistema penitenciário que chegaram a ser afastados por transtornos comportamentais e mentais foram 2.982, de acordo com números do Sindicato dos Funcionários Penitenciários do estado de São Paulo (SIFUSPESP), com base em dados levantados junto ao Departamento de Perícias Médicas do estado de São Paulo.

Os números são de 2017, e outro dado alarmante também do mesmo ano é que o número de suicídios de agentes penitenciários teve um aumento de 40%, chegando a registrar sete mortes em 2017, segundo o sindicato. Dados do ano passado relacionado ao número de mortes, não foram divulgados pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP).

“A própria secretaria omite esses dados”, destacou em entrevista ao HOJE, o agente penitenciário Marcos Roberto Barbosa Aires, 51, que trabalha nos presídios desde 1993, e destaca que além do pequeno efetivo de profissionais, também existe a questão do baixo salário e da falta de abertura de concurso.

Aires destaca que o efetivo de psicólogos é baixo para atender a todo o quadro de funcionários no estado. “ Temos aproximadamente 38 mil agentes, mas acredito que o número de psicólogos não chega a 20. O estado tinha que realizar esse trabalho e de ir atrás dessa saúde mental dos funcionários”, afirmou.

Sobre a questão da falta de apoio ao funcionário, Aires afirmou que passou por diversas rebeliões em presídios, chegando a ficar refém durante uma noite com detentos, e depois do ocorrido, ter um dia de folga apenas, sem nenhum amparo psicológico. “Eu vejo que o agente penitenciário é tratado igual o preso”, destacou.

De acordo com o agente, existem casos em que o próprio servidor cometeu o suicídio na unidade, como uma ocorrência que houve na cidade de Franco da Rocha. Além da pressão, questão salarial, e a lotação dos presídios, Aires diz que outros problemas também são o agente ficar muitas horas longe da família, e existem casos que além da depressão, o funcionário acaba se perdendo nas drogas ou no alcoolismo.

Associação ajuda agentes penitenciários em situação depressiva

O Movimento dos Servidores do Sistema Penitenciário Paulista (MOVA), criado por Yara Francisca dos Santos, 51, agente aposentada que trabalhou no sistema durante 29 anos, além de não cobrar nenhum valor do agente, busca ajudar o profissional que sofre com doenças psicológicas.

“Atualmente temos 206 agentes que estão em tratamento psicológico e psiquiátrico. O ambiente de trabalho é muito nocivo, e diante disso, ele vai desenvolvendo diversos problemas, como ansiedade, depressão e síndrome de burnout. É você olhar para o abismo e ele olhar dentro de você”, afirmou Yara.

Segundo Yara, o ideal é um agente para cuidar até de cinco detentos, porém, no estado atual carcerário de São Paulo, um agente cuida até de nove presos. O MOVA teve inicio no ano de 2014, e está localizado na rua São Pedro, n° 3025, no bairro Santa Cruz, na cidade de Mirassol.

O MOVA conta atualmente com 1.800 associados, que não pagam nenhuma mensalidade, e associação oferece o tratamento psicológico gratuito para agente em situação depressiva com base em doações que recebe. Um número (17 98155-9411), é disponibilizado para atender ao servidor do sistema penitenciário durante 24h.

Yara calcula que entre 900 a 1000 agentes já passaram por tratamento pela associação, que apesar de ficar em Mirassol, caso o servidor seja de outra cidade e não tenha como se deslocar, receberá amparo e atendimento dentro do próprio município. “Existe um estudo afirmando que os efeitos psicológicos que sofre um agente pode ser comparado aos efeitos pós-traumáticos de um soldado em guerra”, destacou.

SAP afirma que realiza enfrentamento ao tema suicídio de diversas formas

Em nota, a SAP informou que realiza ações de combate ao suicídio por meio de palestras, rodas de conversas, cartazes informativos e panfletos em todos os estabelecimentos da secretaria. “Os Centros de Qualidade de Vida e Saúde do Servidor (CQvidass) incentivam as Comissões Internas de Prevenção à Acidentes (Cipas) a programar palestras de atenção à saúde mental e prevenção ao suicídio durante as Semanas Internas de Prevenção de Acidentes de Trabalho (Sipats), e também trabalhar o tema durante o mês de setembro, oficialmente intitulado Setembro Amarelo”, asseverou a secretaria.

Sobre o CQVidass, a secretaria afirmou que trabalha com o atendimento psicológico aos servidores e quando não há profissionais disponíveis da área psicológica ou psiquiátrica, os pacientes são encaminhados para o Iamspe ou rede pública de saúde a fim de realizarem acompanhamento médico.

“Desde 2015 a SAP acompanha os casos de suicídio entre os servidores contudo, as estatísticas referentes aos casos de suicídio não são divulgadas, justamente para preservação dos servidores e seus familiares.Os profissionais de saúde estão se afastando cada vez mais dos concursos públicos, o que dificulta o preenchimento das vagas disponibilizadas para contratação.  A SAP realizou concurso ano passado para a contratação, entre outros cargos, de mais 23 psicólogos”.