Depois da adoção, ONGs acompanham pets para evitar devoluções

Bastou apenas alguns segundos para Priscilla Berenguel e Leandro Fabris se apaixonarem por Soluço, um vira-lata de três meses com megaesôfago, doença que faz com que os movimentos peristálticos (de digestão) parem parcialmente ou totalmente. O plano era adotar um cachorro que gostasse de gatos, pois a gatinha Leia já tinha sido amparada pelo casal. E foi em janeiro deste ano, durante um passeio na feira de adoção do grupo Bartho, em São Paulo, que eles encontraram o filhote.

A condição do animal não foi impeditiva, mas fato é que o cuidado e a supervisão do grupo com o cachorro, mesmo pós adoção, foi um grande facilitador para os novos tutores. “Uma semana depois da adoção, o Soluço ficou doente, não parava de vomitar e a gente não sabia o que fazer. Então mandamos mensagem para Cintia (Rodrigues, coordenadora geral do Bartho) e ela correu pra cá”, conta Priscilla.

Muitas ONGs e grupos que acolhem cães e gatos abandonados fazem o acompanhamento pós-adoção para verificar a adaptação do animal com a nova família e se ele está tendo os devidos cuidados. A ideia é ajudar o adotante nesse processo inicial e evitar devoluções ou abandonos – apesar de os grupos entrevistados afirmarem que são incomuns. “Fazemos um acompanhamento muito rígido, por isso é raro haver devoluções”, diz Cíntia.

Esse cuidado começa na entrevista com o adotante, na qual os grupos se certificam de que o ato de acolher o animal não é feito por impulso. “Se a pessoa admite não ter condições de dar o mínimo para o animal, barramos. Mas qualquer outro problema a gente tenta ajudar”, explica a idealizadora do grupo Adote um Resgatado, Ana Paula Todisco.

Além de oferecer descontos em serviços e produtos e indicações de profissionais mais acessíveis, os grupos atuam como conselheiros, dando dicas sobre a adaptação com outros bichos da casa, orientações sobre as necessidades especiais dos animais doentinhos ou desobediência de outros. Tudo isso digitalmente – por e-mail ou aplicativos de mensagens -, durante um período determinado pelo grupo.

No caso do vira-lata Soluço, mesmo sendo um sábado à noite, a coordenadora do Bartho levou o animal para uma clínica parceira e cobriu todo o tratamento do cachorrinho. “Independente da condição financeiras dos tutores, sabíamos que o Soluço ia ser um animal que ia necessitar de mais atenção, então financiamos tudo e demos todo o suporte para eles”, diz Cinthia.

“Temos uma equipe de cinco pessoas que é responsável pelo acompanhamento dos animais por pelo menos três meses”, afirma Cíntia. Segundo ela, mesmo após o primeiro trimestre da adoção, existe um cuidado de tempos em tempos. “Mandamos mensagens, pedimos vídeos, fotos e até fazemos visitas se acharmos que tem algo estranho.”

Foi assim que a dachshund Luna foi parar na casa do editor-assistente multimídia do Estadão Adriano Araújo. A cachorrinha foi abandonada em um pet shop e acolhida pelo grupo Adote um Resgatado. Ela não pôde ficar na casa da primeira família candidata a adotá-la: a cachorra de 6 anos da casa não aceitou a nova companhia. “Avisamos que o período de adaptação poderia demorar mais do que o esperado, porém, em poucos dias ela foi devolvida”, lamenta a idealizadora do grupo, Ana Paula Todisco.

Ela explica que a adaptação varia de pet para pet. “Dentro do que a gente está acostumado a ver, em 15 dias eles já estão bem adaptados, mas pode ser que demore mais. Depende muito do animal e de como o dono se dispõe a ajudar essa adaptação também.”

De acordo com a veterinária Elizabeth Kepecs, o processo todo é um somatório e o ideal é não generalizar. “Existe a questão da personalidade da raça, mas, mesmo entre as raças, cada um tem sua personalidade. É preciso unir a do dono com a do animal”, diz. Ela explica que comportamentos como xixi fora do lugar ou recusa de carinho, durante os primeiros dez dias, são comuns. “Passou disso, é sinal de alerta. Isso, claro, descartando qualquer situação que possa parecer uma doença.”

Aliás, o olhar atento dos novos tutores de Luna fez toda a diferença. “Ao trazê-la para casa, a gente (Adriano e a esposa, Elaine) percebeu sangue no final da urina. Levamos na veterinária e descobrimos que ela tem pequenos cálculos na bexiga”, relata Adriano, que contou com a ajuda das voluntárias do grupo. “Notei que eles realmente têm uma preocupação de encontrar um lar onde eles (os bichos) vão ficar bem.”

A produtora de eventos Luiza Ansaloni divide a mesma opinião. Durante a adaptação do gatinho Chewbacca, que estava há dois anos na Gatópoles, ONG da zona leste de São Paulo, houve dificuldades. “Ele ficou sem comer, não saía do quarto. As voluntárias me tranquilizaram e me deram dicas para acalmar com música clássica”, conta Luiza – Chewie foi seu primeiro gato adotado de uma ONG. “Os outros três eu peguei da rua, então foi a primeira vez que eu tive esse acompanhamento.”

Além de continuar o cuidado por seis meses após a adoção, a equipe da Gatópoles faz questão de uma visita muito inspecionada antes de entregar o animal. “Na entrega, o voluntário irá avaliar se o local é realmente seguro (com janelas e portas seladas). Caso sim, é assinado um termo de adoção e o gatinho é entregue efetivamente”, revela Camila de Santi Louzada, voluntária responsável pelo pós-adoção da ONG.

Ações na pandemia

Os cuidados podem vir de diferentes formas e por diversas razões Durante a pandemia, por exemplo, a Bartho fez uma ação para famílias que perderam empregos e os procuraram para ajudar nos gastos dos pets. “Junto com a ResGatinhos de São Francisco, juntamos todas essas pessoas que nos procuraram e a priori levaríamos ração, mas vimos também que as próprias famílias precisavam de ajuda, então conseguimos juntar cestas básicas para serem distribuídas”, conta Cíntia.

Outro programa realizado no período foi a Sua Vida + Especial, desenvolvido pelo grupo carioca Focinhos de Luz na tentativa de incentivar a adoção de animais idosos ou com doenças crônicas. “Nesse programa, o acompanhamento é feito até o fim da vida desse animal e ficaremos encarregados de todos os custos decorrentes dos problemas de saúde relacionados à idade ou doença crônica junto à nossa veterinária parceira”, conta a voluntária Gabrielle Centurione.

Para animais fora desse grupo, o pós-adoção dura no mínimo seis meses, com descontos e dicas. A administradora Bianca Barros, por exemplo, que adotou o cachorro Paçoca na Focinhos de Luz, admite ter se sentido muito segura com o acompanhamento, apesar de não ter tido nenhum problema com doença ou adaptação. “Durante os primeiros dias, trocamos a comida e ele vomitou um pouquinho.

Elas me ajudaram e, durante seis meses, entraram em contato comigo toda semana perguntando se precisava de alguma coisa”, conta ela, que se aproximou muito do grupo por conta disso e até hoje manda fotos e mensagens sobre o “novo filho”.

ONDE ADOTAR



@barthoprotecaoanimal

Grupo de protetores com sede em São Caetano do Sul.

@adoteumresgatado

Grupo de proteção de animais abandonados sem sede física. Oferece doações e aceita ajuda em forma de lares temporários.

@projetokaotinho

Grupo de proteção de animais vítimas de abandono e maus-tratos de Mairiporã. Oferece adoções e aceita doações.

@resgatinhosdesaofrancisco

Grupo de proteção de gatos em São Paulo. Aceita doações.

@abrigoanjogabriel

O abrigo protege gatinhos de rua no bairro de São Miguel Paulista. Aceita ajuda em dinheiro e posta fotos de bichanos disponíveis para a adoção.

@focinhosdeluz

ONG do Rio de Janeiro com propósito de reabilitar os animais.

@gatopoles

Gatinhos resgatados, castrados e vacinados para adoção.